Centenário

100 anos da morte de Lenin: qual o legado do líder da Revolução Russa?

No centenário da morte de Lenin, o Brasil de Fato traz uma análise sobre o seu legado para a Rússia de hoje

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Lenin chega às vinte e três horas do dia 3 de abril de 1917 na estação em Petrogrado - Foto: Reprodução
Lenin chega às vinte e três horas do dia 3 de abril de 1917 na estação em Petrogrado - Foto: Reprodução

Por Serguei Monin – Brasil de Fato – Há cem anos, no dia 21 de janeiro de 1924, morreu o político, teórico e líder da Revolução Russa, Vladimir Lenin, que deixou uma profunda marca na história do país e determinou em grande medida os rumos do mundo no século XX. Ao liderar os bolcheviques na revolução que derrubou o czarismo na Rússia, Lenin deu início à primeira experiência de um Estado socialista no mundo e o legado de suas ideias e do impacto de suas ações políticas ainda ecoa nos dias de hoje.

Vladimir Lenin teve papel decisivo tanto em consolidar a vitória dos bolcheviques sobre o governo provisório do menchevique Alexander Kerensky, que assumiu o poder na Revolução de Fevereiro e foi classificado por Lenin como “traidor do socialismo”. A Revolução de Outubro marca o triunfo dos bolcheviques sobre o governo provisório e o início de grandes transformações políticas e econômicas na Rússia.

As principais mudanças que Lenin adotou no início de seu governo foram a retirada da Rússia da Primeira Guerra Mundial, a realização de uma reforma agrária e a estatização de indústrias e bancos. Ao mesmo tempo, o líder buscava uma internacionalização do socialismo, visando a expansão do processo revolucionário para outros países.

Os primeiros anos da Rússia pós-revolução também foram marcados pela Guerra Civil de 1918-2022, em que o novo governo bolchevique (vermelhos) lutava contra as forças opositoras anti-socialistas (brancos), formadas por militares do regime czarista, grupos ligados à Igreja Ortodoxa, liberais, conservadores e apoiadores da monarquia em geral. Este período também consolidou a liderança de Lenin e força dos bolcheviques. Em 1922, é formada a União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), unificando a Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Transcaucásia (território que hoje corresponde à Armênia, Azerbaijão e Geórgia).

A morte de Vladimir Lenin em 1924 deu lugar à liderança de Josef Stalin à frente da União Soviética. O novo líder determinou o marxismo-leninismo como ideologia de Estado da União Soviética.

Os caminhos abertos por Lenin levaram a URSS a um desenvolvimento econômico e militar que alçou o país ao status de segunda maior potência mundial. A experiência soviética também foi marcada por profundas crises no plano internacional, como a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, e com grandes repressões internas, sobretudo na era Stalin.

Apesar de ter ficado pouco tempo no poder, se comparado aos seus sucessores, como Joseph Stalin e Leonid Brejnev, Lenin é o principal símbolo da experiência soviética e sua herança seguiu exercendo grande influência ao longo do século XX. Esse legado, no entanto, divide opiniões na Rússia de hoje, sobretudo por parte do governo, que evita celebrar os feitos da Revolução.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o historiador Rodrigo Ianhez observa que a Revolução Russa recebe um tratamento oposto à memória histórica que se tem da vitória na Segunda Guerra Mundial, por exemplo.

“O tema da revolução não é exatamente um tema que o governo russo queira levantar, queira celebrar. Ao contrário, muito diferente do que ocorre no Dia da Vitória, que é uma data celebradíssima. Inclusive esse tema é lembrado ao longo de todo o ano, a vitória na Segunda Guerra. A Revolução não. Isso ficou muito claro no centenário da Revolução, quando as comemorações foram muito modestas”, explica.

De acordo com Ianhez, este contraste está diretamente ligado à divisão entre “vermelhos” e “brancos” que se deu com o processo revolucionário em 1917, em oposição à promoção de uma ideia de união nacional da Rússia catalisada pela vitória contra o nazismo na Segunda Guerra. O historiador brasileiro, que mora há mais de dez anos em Moscou, observa que, mesmo muito presente na memória histórica na Rússia, o papel de Lenin muitas vezes é ofuscado pela importância de Stalin na vitória da Segunda Guerra Mundial.

“Paradoxalmente, Lenin é uma figura pouco lembrada. Porque eu digo paradoxalmente? Porque nas ruas da Rússia você ainda encontra muitas imagens de Lenin. Muitos monumentos no metrô de Moscou, ao contrário de Stalin, cujas imagens foram removidas todas na década de 1960. Porém Stalin é muito lembrado por causa do seu papel na vitória na Segunda Guerra Mundial”, afirma.

O pesquisador destaca que, para parte da população russa, Lenin é colocado “como uma figura anti-Rússia, pelo seu papel no internacionalismo, com o seu papel de desmontar o Império Russo e o chauvinismo russo”. “Ele é colocado como essa figura anti-russa e o seu legado é muito menos discutido e às vezes até mais atacado do que o legado de Stalin na Rússia hoje”, aponta.

Lenin e o discurso de Putin sobre Ucrânia

O que é inegável é que as políticas adotadas por Lenin no início do século XX na União Soviética exercem influência até hoje. Foi Lenin, por exemplo, que defendeu a autonomia de repúblicas vizinhas que eram subjugadas pelo czarismo, que adotou duras políticas de “russificação” em todo o Império Russo. É o caso da Ucrânia, que, após a Revolução, passou por um processo de autodeterminação e valorização da cultura nacional, movimento incentivado por Lenin de defender a autonomia das repúblicas soviéticas, até ser se tornar uma república integrante da União Soviética.

Às vésperas do início da invasão russa na Ucrânia em 22 de fevereiro de 2022, o presidente russo, Vladimir Putin, fez um pronunciamento em que colocou em xeque o fato de que a Ucrânia é um Estado independente, acusando Lenin de ter separado o país vizinho da Rússia.

Ao anunciar o reconhecimento das autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, que ficam no leste da Ucrânia e foram anexadas por Moscou em outubro de 2022, Putin declarou que “a Ucrânia moderna foi criada inteiramente pela Rússia”. “Esse processo começou imediatamente após a Revolução de 1917 e, ademais, Lenin e seus associados o fizeram da maneira mais desordenada em relação à Rússia: dividindo, arrancando da Rússia pedaços de seu próprio território histórico”, disse o presidente.

“Este é um fato histórico. Como eu disse, como resultado da política bolchevique, surgiu a Ucrânia Soviética. Ainda hoje temos uma boa razão para chamá-la de Ucrânia de Vladimir Lenin. Ele é o seu autor e arquiteto. Isto é totalmente confirmado por documentos de arquivo”, acrescentou Putin às vésperas de atacar o país vizinho.

O historiador Rodrigo Ianhez reconhece que as fronteiras atuais da Ucrânia, que ganhou plena independência em 1991, após o colapso da URSS, foram estabelecidas durante o governo bolchevique. “De fato, Putin guardou palavras bastantes duras sobre Lenin no seu discurso no início da invasão da Ucrânia e ele tem razão em atribuir as fronteiras contemporâneas da Ucrânia a Lenin. Não apenas a ele, mas de fato os principais traços dessa Ucrânia que hoje a gente conhece como Ucrânia foram desenhados no período da Revolução, após a guerra civil, após a vitória dos bolcheviques. E isso vale pra várias ex-repúblicas soviéticas, que antes eram províncias do Império Russo, cuja fronteira que nós conhecemos hoje foi delineada ali por Lenin”, explica.

A controversa fala de Putin, no entanto, é criticada por diminuir outros processos de independência ucraniana que ocorreram em outros momentos históricos, como após a própria revolução de 1917, antes da Guerra Civil. Há também um debate historiográfico que dá conta de que a consolidação da Ucrânia como país remonta ainda ao século XVII. Na versão de Putin, neste período a Ucrânia, a Rússia e a Bielorrússia formavam um só povo.

Controvérsia do mausoléu de Lenin

Imortalizado em seu mausoléu em Moscou desde 1930, ao longo das últimas décadas, no entanto, aconteceram vários movimentos políticos para buscar retirar o corpo do líder bolchevique da Praça Vermelha, gerando controvérsia na sociedade russa sobre a celebração da sua memória.

Durante os anos 90, o governo do presidente Boris Yeltsin tinha planos concretos para enterrar o corpo do líder revolucionário. Como afirma o escritor e jornalista Mikhail Zygar, em seu livro “Todos os Homens do Kremlin”, Yeltsin “estava ansioso para romper com o passado”. “Para ele, o enterro de Lenin seria um símbolo da nova era e das mudanças irreversíveis que ocorreram, assim como o enterro de Stalin havia sido para Khrushchev”, escreve Zygar.

Na ocasião, os planos foram adiados por conta das intensas intrigas políticas do Kremlin. O governo precisava priorizar a luta impedir o avanço da ala do Partido Comunista ao poder. O debate sobre a permanência do corpo de Lenin no coração da capital russa reacende de tempos em tempos. Em 2017, o Partido Liberal Democrático da Rússia (LDPR), protocolou um pedido para desmantelar o mausoléu.

Em uma pesquisa realizada em janeiro deste ano pelo Centro Russo para o Estudo da Opinião Pública (Vtsiom), dedicada ao centenário da morte do ex-líder, o enterro do corpo de Vladimir Lenin em um cemitério é apoiado por 57% dos russos. Entre estes, 30% defendem que isso deve ser feito o mais rápido possível, e 27% propõem voltar ao assunto quando a geração que venera o revolucionário falecer.

Putin, por outro lado, muitas vezes demonstrou cautela sobre este assunto, temendo uma decisão drástica que possa dividir a sociedade. Além disso, o monumento é considerado um Patrimônio Mundial da Unesco. O historiador Rodrigo Ianhez argumenta que a ala dos liberais na Rússia é que questiona o legado soviético, “e até certo ponto busca promover uma revisão da história da União Soviética”. “São aqueles que protagonizam o movimento para retirar Lenin do mausoléu, enfim, fechar o mausoléu, até mesmo a toda a necrópole do Kremlin”, explica.

“Porém, inclusive para utilizar termos que o Putin utilizou, enterrar Lenin seria enterrar o sonho de várias gerações ainda vivas da União Soviética. Então, por esse lado, há uma parte das autoridades que busca não tocar nesse tema, mas é um tema que surge a cada tantos anos, mas no momento real, por enquanto, retirar o mausoléu ainda não se concretizou, apesar de que me parece que é apenas uma questão de tempo”, completa.

Publicado originalmente em Brasil de Fato

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