Filósofa Marcia Tiburi lança livro destinado às mulheres e proibido para 'homens burros'

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“O policial anotou a resposta, deu-lhe os pêsames e não buscou mais detalhes, o que para Chloé fazia parte do pacto de silêncio masculino que sustenta a violência contra as mulheres em qualquer tempo e lugar.” O trecho faz parte no novo romance da escritora e professora de Filosofia Marcia Tiburi, Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve, pela editora Nos.  :: ‘Toda mulher que faz política é tratada como uma intrusa, os homens não querem que a gente esteja lá’, afirma Marcia Tiburi :: Auto-exilada por quase cinco anos, decisão que tomou após ser ameaçada de morte, ela voltou ao Brasil, trazendo na bagagem seu novo romance. A primeira rodada de lançamento do livro aconteceu em Porto Alegre. Juntamente, sua participação na roda de conversa, promovida pela Secretaria de Mulheres do PT POA, dos Movimentos Populares do PT e Setorial LGBT.  Entre um compromisso e outro, Marcia conversou com o Brasil de Fato RS sobre feminismo, fascismo, machismo, exílio, literatura e a violência contra as mulheres.  Brasil de Fato RS – Qual é a sensação de estar voltando, de estar aqui na tua terra, de estar vindo lançar um livro e de fazer uma atividade como a roda de conversa “Desconstruindo o Fascismo, rumo a uma Porto Alegre feminista, antifascista, antirracista e antilgbtfóbica”?  Marcia – Primeiro eu estou muito feliz, mas tentando ainda elaborar os acontecimentos. Quando estamos dentro dos acontecimentos as elaborações da experiência não acontecem imediatamente. Você precisa de um tempo para digerir, ruminar sobre o que se passou.  Fiz um lançamento do livro ‘Sob os pés, meu corpo inteiro’ em Maringá e recebemos ameaça de massacre Noto, por exemplo, que, quando saí do Brasil em 2018, foi justamente depois do lançamento de um romance que se chama Sob os pés, meu corpo inteiro, que foi indicado no ano seguinte aquele prêmio Oceanos, um prêmio bem importante da literatura de língua portuguesa. E era uma história de uma mulher exilada.  E aí fiz um lançamento desse livro em Maringá e recebemos ameaça de massacre lá, (por) pessoas do Movimento Brasil Livre (MBL), muito pouco criticado ultimamente, um movimento que tem como tática a agitação fascista. Também são (seus integrantes) especialistas em produzir criminalizações. :: “Vivemos uma ditadura miliciana”, diz Márcia Tiburi :: Em 2017, estiveram na produção da criminalização dos artistas, do Queermuseu, que fechou aqui no (centro cultural) Santander. Perseguiram o criador do Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, perseguiram o Wagner Schwartz, aquele artista que fez uma performance no MAM com o bicho da (artista plástica) Lygia Clark. Ele estava nu e eles criaram toda uma mistificação em cima da nudez desse artista.  Todas essas pessoas foram exiladas do Brasil. O Gaudêncio Fidelis vive em Nova York porque não tem segurança no Brasil. Foi uma pessoa muito atacada e vilipendiada. Mas também é um exilado e foi acolhido nas universidades americanas da mesma forma que fui acolhida nas universidades francesas.  Saí em 2018 e fui para uma instituição que se chama City of Asylum, quem me chamou foi aquele homem que estava ao lado do (escritor) Salman Rushdie quando ele recebeu a facada. Ele se chama Henry Reese e criou a City Of Asylum. Sabendo que eu era uma escritora perseguida, cujos eventos literários foram invadidos naquele ano de 2018, começou a me chamar para ir para São Petersburgo (Flórida), nos Estados Unidos. Demorei muito para aceitar, mas quando não tinha mais condições de ficar aqui fui embora. Depois recebi um convite para a França, enfim…   Também estou escrevendo um livro sobre isso. Esse exercício de memória não é um exercício literário no sentido genérico, mas tem um caráter também de criar arquivo histórico. O arquivo histórico desse exílio é um trabalho que estou produzindo.  E esse romance aqui (Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve) para mim é muito significativo. Fiquei trabalhando nele do começo de 2020 até agora, ou seja, três anos. Saí do Brasil com um romance e depois lancei vários livros, ensaios, mas sempre virtualmente. Não tivemos mais a oportunidade de encontrar com o público, até porque percebi que a minha presença era um motivo de perigo para as outras pessoas.  Em Maringá, 400 ou 500 pessoas foram revistadas pela polícia e eu e o jornalista que estava comigo naquela situação de evento literário. Eu e ele tínhamos entre nós um policial com colete a prova de balas e um rifle. Eles não invadiram, mas a polícia estava lá.  Se os homens lerem esse livro, se tiverem coragem, vão todos ter que fazer terapia Agora, quando volto, volto também com um romance. É um romance feministérrimo. Digo que, se os homens tiverem coragem de ler, vão ter que se enfrentar com uma coisa que não estão acostumados. Porque a literatura é muito feita para os homens. E esse livro é escrito para falar a verdade sobre a vida das mulheres. Embora seja um livro bastante simbolista. É uma grande alegoria que criei aqui, uma personagem que me acompanhou durante vários anos. :: Márcia Tiburi e o ódio nas redes: “Minha imagem é usada para produzir engajamento” :: É um livro para a gente se entender, falar do nosso imaginário. Para que possamos falar das nossas dores, dissabores, medos, angústias. Fiz a melhor literatura que poderia ter feito porque é um livro para nós. E, claro, quando eu falo ´mulheres` também falo no sentido super genérico, mulheres cis, mulheres trans, mulheres travestis. Falo também dos trans homens, que são pessoas que tendencialmente sabem muito bem o que é também ser uma mulher, embora façam a transição. Penso nessas pessoas que não são o homem branco europeu, ou o homem que assume a posição dessa figura a ser desconstruída, que é o estereótipo do homem branco.  E que verdades são essas?  É um livro sobre violência. Falar sobre as mulheres é falar de violência. Violência física, violência simbólica, a violência dentro da qual nós estamos inseridas. E nossos afetos relacionados a isso, as angústias, os medos, os terrores. E o enfrentamento disso tudo. Isso também faz parte do jogo, porque a coragem é uma virtude feminina. Se os homens lerem esse livro, se tiverem coragem, vão todos ter que fazer terapia, e talvez nós, mulheres, economizemos umas 30 sessões de terapia depois de ler esse livro. É a minha expectativa em relação a essa modesta obra de 300 páginas.  O feminicídio é um núcleo duro da proposição patriarcal Durante a pandemia tu participaste do lançamento do Levante Feminista contra o Feminicídio. Como esse movimento influenciou nesse livro?  Influencia sim. Esse livro eu comecei a escrever em 2020, junto com a pandemia. E, no fechamento de 2020 para 2021, vem a ideia do Levante. Nasce de um jeito muito simples. Escrevi uma postagem no Instagram: precisamos conversar sobre o feminicídio, por quê? Porque o feminicídio é um núcleo duro da proposição patriarcal. É através da ameaça de morte às mulheres que o sistema se sustenta. E essa ameaça de morte se faz em gradações diversas, sempre tem a sentença de morte, mas ela se elabora. São muitas violências e todas têm a ver com o extremo da morte, o extremo da violência que é esse assassinato, que algumas décadas pelo mundo afora vem sendo chamado de feminicídio, o crime com motivação de gênero em relação a uma mulher.  Naquele final de 2020 para 2121 teve o assassinato de sete ou oito mulheres no Natal. Teve aquela juíza que foi morta – ela tinha uma medida protetiva, abandonaram a medida e ela foi assassinada pelo marido na frente das três filhas. E aquilo chamou muita atenção. Afinal de contas, também era uma agente da lei. Aí deu para ver que não é só a mulher em um extremo de vulnerabilidade que é ameaçada. Uma mulher que supostamente não seria vulnerável também é vulnerável.   Mulheres que fazem política, que sofrem violência política de gênero, que são ameaçadas de morte como é o meu próprio caso. Sou eu uma mulher vulnerável? Não, só que sim. Essa é a questão. Todas nós, de alguma maneira e em alguma medida, estamos na mira da matança patriarcal.  A ameaça é uma categoria política hoje O patriarcado, como sistema, funciona nos ameaçando. Estamos sempre ameaçadas por todos os lados, de todas as maneiras, as físicas, as simbólicas, as domésticas, as públicas. A ameaça é uma categoria política hoje. A ameaçabilidade é uma categoria política importante para analisar gênero, raça, classe, tudo isso. No caso das mulheres fica muito claro. Inclusive, pensando na história que vivemos nesse período de fascistização do Brasil, ficou muito mais evidente. A ameaça foi uma tecnologia política e, sobre as mulheres, mais ainda. E as estatísticas pioraram.  “Uma mulher que supostamente não seria vulnerável também é vulnerável” / Foto: Fabiana Reinholz Voltando ao Levante: lembro que a Vilma Reis (socióloga, defensora dos direitos humanos, das mulheres, negros e LGBT) lá da Bahia, fez um comentário nessa postagem. A gente se telefonou e aí, naquele dia, éramos duas, no dia seguinte éramos três, em uma semana éramos 15, em três semanas éramos 100, e hoje somos mais de 1000 entidades feministas do Brasil todo. E uma das coisas bonitas que tem o Levante, é que além de tudo que está acontecendo – Télia Negrão (militante feminista do Rio Grande do Sul) é realmente nossa referência master nessa história toda – tem essa coisa de ter juntado as mulheres do Brasil. Há um encontro que antes não existia e por quê? Porque o núcleo duro do patriarcado está sendo exposto e é a matança das mulheres. É o mais profundo. E, claro, isso também escandaliza os homens, amedronta os homens. :: Mulheres se unem em ato contra o feminicídio e gritam: “Nem pense em me matar” :: Então, imagina essas mulheres todas aguerridas vindo à luz do dia, essas mulheres que deveriam ficar no subterrâneo da história, que deveriam nunca ter aparecido, de repente aparecem. De repente, são muito competentes como na CPI do MST. Eles não esperavam que existisse gente competente na política porque os fascistas projetam a sua estupidez, a sua ignorância, a sua maldade, a sua incompetência, os seus interesses, nos outros. Eles jamais conseguiriam imaginar que haveria gente mais inteligente, mais preparada, mais decente, mais honesta e, além de tudo, que mulheres pudessem ter essa competência.  Fico muito feliz de ver isso acontecendo. Este livro tem muito a ver com isso, porque é uma história que começa com o feminicídio. Minha heroína é filha de uma mulher assassinada pelo homem com quem ela vivia e dali se desenvolve a história toda. Que não convém contar muito, mas é o desenvolvimento bastante alegórico de uma menina que vê na sua mãe assassinada na adolescência. É a história dela dos 13 anos para a frente.  Escrever aquele livro Como Conversar com um Fascista foi uma doce vingança E ela fica sozinha e essa é outra questão: o que acontece com os filhos das mulheres que são assassinadas? Qual a responsabilidade do Estado nisso? Muitas vezes esses filhos vão até morar com o pai (assassino) se o pai não for preso. É trágico.  É pesadíssimo, porque é possível que a iniquidade desse gesto continue sendo naturalizada. Uma criança que perde sua mãe assassinada pelo pai ou companheiro e depois vai viver com o assassino. Isto só é possível porque, para essa sociedade patriarcal, a vida das mulheres não vale nada. Quando você vê esses movimentos pró-criminalização do aborto, por exemplo, eles são totalmente antifemininos, antimulheres. Não são nem antifeministas. São antimulheres. Pregam o ódio às mulheres e esse ódio é naturalizado no patriarcado, que a gente chama de misoginia. As pessoas começaram a se impressionar, na época da fascistização, com o ódio. Nós, mulheres, conhecemos esse discurso de ódio desde sempre.  Quando não fomos vítimas de ódio? É histórico. Para mim, quando fiz a denúncia do fascismo lá em 2015, escrever aquele livro Como Conversar com um Fascista, foi uma doce vingança. Uma vingança poética e uma homenagem as nossas mulheres que são injustiçadas, ofendidas, maltratadas.  “Quando não fomos vítimas de ódio? É histórico” / Foto: Fabiana Reinholz De alguma forma te aliviou a alma?  Total. Eu me diverti escrevendo o livro. Foi uma solidão muito bem vivida e guardei esse livro à sete chaves.  Porto Alegre foi a primeira cidade a receber Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve? Sim, depois virão São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e outras cidades. Agora, estou no programa de proteção a defensores de direitos humanos. É importante que a gente se mantenha nesse programa. O que aconteceu com a Mãe Bernadete foi horrível. Li uma matéria que ela saiu do programa de proteção. É um programa muito pequeno, ligado ao Ministério dos Direitos Humanos.  Ano que vem, 2024, que é de campanha, a fascistização vai eclodir novamente O ministro Sílvio Almeida até disse que assumia toda a responsabilidade.  É uma catástrofe. Eu estou no programa, o programa sabe que estou aqui. Eles (os funcionários do programa) são responsáveis por coordenar policiamento, segurança, essas coisas todas… Tu segues recebendo ameaças?  Diretas menos, mas difusas sempre, e muitas agressões pelas redes… Não tenho mais Twitter, então já não recebo mais nada por lá. Saí por conta das comunidades de ódio daqueles meninos, na época da matança das crianças. Mas as pessoas também ficam falando mal quando você sai, tem todo esse negócio horroroso. Eu recebo ainda pelo Instagram. Desde o 8 de janeiro diminuiu bastante, mas sempre tem. Constantemente vem alguma, mais indireta, coisas assim: ‘Se eu te encontrar na rua, você não sabe o que vai acontecer com você`, ou ´Espero que você morra disso`, ou ´Espero que esse teu cabelo seja sinal de que você está morrendo e que você está com câncer, e que a quimioterapia não está funcionando’ ou então ´Espero que isso mate, espero que esse teu post seja sinal de morte`, coisas do tipo.  Tem muita agressão, mas essa ameaça de morte mais direta diminuiu bastante neste ano. Mas esse ano não é de eleição, é ano de derrota. Bolsonaro será preso. Tem um acuamento, uma vergonha, uma perda de chão e de referencial a partir da perda do Bolsonaro, e muita gente então vai se encolher.  Agora o ano que vem, 2024, que é de campanha, temos que nos preparar. Porque a fascistização vai eclodir novamente. Porque é uma tecnologia política que garante muitos eleitos da extrema direita, que já aprendeu como faz para produzir a mistificação, a lavagem cerebral, conduzir as massas para um determinado jogo. Neste ano, o tom está mais fraco, até porque estamos num momento esperando a qualquer segundo a prisão do Bolsonaro, que vai deixar os bolsonaristas e os fascistas em geral…  A direita instrumentalizou a extrema direita esperando que Bolsonaro não fosse um bandido tão mequetrefe Acreditas que ele vai ser preso?  Acredito que ele será preso. Faz parte do jogo do poder que o Bolsonaro também seja preso. Ninguém ganha nada com Bolsonaro solto. Poderiam passar pano se quisessem, mas não tem porquê. Tem muita gente exigindo que isso aconteça. O Brasil é um país em que se dá golpes, então é nesse sentido.  Espero que essa justiça se faça. Penso sempre do ponto de vista simbólico, do ponto de vista das performatividades estéticas influenciando a política. Então, se não fizerem isso com Bolsonaro, a extrema direita continuará sendo muito forte. Só que os amigos de Bolsonaro que se tornaram inimigos de Bolsonaro também querem acabar com ele, porque não é um sujeito que dá para usar muito. Perdeu o seu potencial político à medida que demonstrou ser muito incompetente para servir à direita. A direita manipulou a extrema direita. Instrumentalizou a extrema direita esperando que Bolsonaro não fosse um bandido tão mequetrefe como é. Faz as coisas de um jeito muito mal feito e é envolvido em esquemas muito baixos. Não quero dizer com isso que exista o crime alto. Existe um crime no meio político que envolve outras somas e outras estratégias.  Pessoas vão te atacar pelos mais diversos motivos. Vão criar motivos quando não houver motivos Existe um Arthur Lira que é de alto nível, embora seja de baixíssimo nível. Tem outro jogo de poder com valores muito mais interessantes. Bolsonaro é a ralé do crime. Esse tipo de criminoso não interessa aos seus pares. “A direita manipulou a extrema direita” / Foto: Fabiana Reinholz Essa extrema direita continua forte e não só no Brasil. Por exemplo, agora as prévias na Argentina, esse candidato que surge, o que está acontecendo no Equador, nos próprios Estados Unidos com o Trump ainda na disputa, Colômbia numa eminência forte também de golpe…  A extrema direita não vai parar em lugar nenhum. A derrota que eles sofreram, por exemplo, na Espanha, foi importante, porque arrefece. O problema é o extremismo e o extremismo de direita. Porque o extremismo de esquerda praticamente não existe mas a gente pode dizer que a Nicarágua é um extremismo de esquerda do pior tipo. Vamos citar esse exemplo, porque esse é confirmadamente uma catástrofe política. As feministas estão presas. Seria como o Lula mandar me prender agora. E era um projeto tão interessante no passado do sandinismo… É uma pena que, muitas vezes, as pessoas da esquerda brasileira não se dão conta do horror que é aquilo.  Mas aí tem todos esses exemplos que você deu e também a (primeira-ministra Giorgia) Meloni na Itália. Os exemplos do avanço e também da queda. É um balanço que a gente vai ter que jogar o resto da vida. Qual é o jogo? É importantíssimo não permitir que a extrema direita exterminadora avance. E Bolsonaro é isso. Bolsonaro e a extrema direita tem um projeto de extermínio do ‘inimigo`. Eles criam inimigos, e por isso, a ameaça vira uma tecnologia política tão fácil. Pessoas como eu, Manuela d’Avila, Dilma Rousseff, Lula, Jean Wyllys, somos transformados, somos esculpidos midiaticamente como inimigos.  Todo mundo sabe que o Brasil teve, nos anos 1930, o maior partido nazista fora da Alemanha Então, pessoas vão te atacar pelos mais diversos motivos. Vão criar motivos quando não houver motivos. Ou vão distorcer motivos. É perigoso para a vida do indivíduo, mas muito mais perigoso para a vida da democracia da qual dependem todas as vidas.  Claro, aqui no Brasil, também o governo tem responsabilidade nisso. Eu acho o governo, eu respeito tudo, aceito tudo, não critico o governo, nada, porque acho que tem muita coisa que está sendo reorganizada, mas a gente já está com um pé na negligência e a morte da mãe Bernadete foi efeito disso.  “Penso que o feminismo está se transformando em democracia radical, o devir do feminismo é a democracia radical” / Foto: Fabiana Reinholz Aqui no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina existem muitas células nazistas. Estudiosos falam que isso vem muito do integralismo. Chegastes a estudar isso?  Tem trabalhos muito bons sobre isso. Sempre cito o excelente documentário Anauê (Anauê! O Integralismo e o Nazismo na região de Blumenau, de 2015). Todo mundo sabe que o Brasil teve, nos anos 1930, o maior partido nazista fora da Alemanha. O que criou um lastro cultural, a nossa colonização alemã e italiana infelizmente deu base a isso.  Não quero dizer que não sejamos um povo complexo. Temos esquerda, direita, extrema direita, extrema esquerda, essa mistura da miríade da política. Temos o feminismo que cresce e que já está sendo a grande transformação. Mas é preciso que haja um enfrentamento a essa cultura de nazificação do país que teve um impulso fortíssimo nesse período do Bolsonaro.  :: Morre Adriana Dias, uma das maiores pesquisadoras do neonazismo no país :: Então, Adriana Dias que faleceu no começo de 2023, estava fazendo uma pesquisa importantíssima havia 20 anos mapeando esses grupos. E ela notou esse salto numérico de 300 grupos (neonazistas) para 400 grupos, para 500 grupos, para 600 grupos. Aumentou muito. É preciso plantar outras ideias. Se a gente não construir uma cultura democrática, um estado básico de direitos assegurados, de direitos humanos assegurados, de proteção aos defensores de direitos humanos, a gente vai ter mais e mais e mais vítimas.  O que a gente busca? Conscientizar, apontar e, a partir daí, buscar caminhos de diálogo, de produção de políticas, de encontro com instituições, entidades, personalidades que possam abrir para essa análise, para essa discussão, e a sociedade avançar com a sensibilização também de todos esses grupos e indivíduos, enfim.  E com uma estética que busca trazer leveza, beleza, por exemplo, a estética das flores, das margaridas que traz o Levante Feminista… Então, ali qual é o jogo? É talvez menos a beleza e mais o símbolo. Não vamos trabalhar com uma estética do sofrimento, porque não queremos produzir gozo com o sofrimento. O que a gente quer é apontar para uma questão. E, ao apontar, não precisamos apontar com uma arma e com sangue. A gente pode apontar com um elemento, digamos, de um repertório do belo, do sensível.  Então, as obras, sobretudo as da Marta Moro, que é uma artista que tem feito o design desse negócio todo, e ela tem um desenho muito espontâneo, realmente muito bonito. Mas o objetivo não é fazer uma coisa bonita para edulcorar o horror. Mas colocar para as pessoas um elemento simbólico, no caso o girassol. A flor que desabrocha com o sol, sua corola, suas pétalas passam por várias posições durante o dia. E é uma flor de Oxum, que também é uma orixá importante para as mulheres brasileiras e para as mulheres do Levante. Uma orixá que junta o Brasil de um jeito muito bonito.  A personalidade autoritária se regozija com aquele outro que está em sofrimento Eu diria que a densidade dessa campanha está nessa construção simbólica, buscando apontar para o horror que precisa ser transformado. No mundo de gente fascista, a personalidade autoritária, ela goza com a dor dos outros. Quando vê o sofrimento ela se regozija, mesmo que não se alegre.   Eu lembro do filme Novecento, do Bertolucci, sobre o fascismo na Itália, que mostra muito isso.  Esta é a característica. O ressentimento e o gozo com a catástrofe e com o horror que o outro está vivendo porque é carente de compaixão. Não tem alteridade, não tem a dimensão do outro, não interessa se o outro está sentindo dor, melhor ainda se estiver sentindo dor. Se ele está numa situação muito ruim emocionalmente, fisicamente, a personalidade autoritária, que é a base disso que a gente chama de fascismo, se regozija com aquele outro que está em posição de sofrimento. Porque tem um noivado do fascista com a morte. O que ele ama mesmo é a morte. Ele ama ver morrer, regozija-se com a morte dos outros, com o sofrimento e com a brutalidade.  E a brutalidade pegou no Brasil. Nós, gaúchos, conhecemos isso. Eu venho da Serra gaúcha e posso falar isso. A Serra gaúcha é um lugar – claro, há amor, pode se procurar e vai se encontrar em alguns lugares – mas de uma maneira geral é o conservadorismo, a brutalidade, a falta de empatia, a falta de compaixão, a frieza, o cinismo. Fui até Caxias pegar um avião e encontrei ali os caxienses todos. Vi o tipo clássico, aquele homem branco, loiro, e ele falava assim ´E tu vê: se ainda tu chega lá e dá um tiro e mata um, tu ainda é preso`… Fiquei só assistindo. Fazia tempo que não escutava um discurso desses, tão a vontade. Ele estava tão à vontade com a sua personalidade autoritária, gozando com a desgraça, com o sofrimento, com a tragédia dos outros, e dizendo: ´Por que eu não posso sair matando quem eu quiser? Ainda vou ter que ser preso se sair por aí matando com meu revolver, não posso andar armado agora`. Então, temos que nos enfrentar com essas pessoas, ao seu lado uma esposa submissa. Aliás, um filme bom para assistir é Arquitetura da Destruição (documentário sobre a ascensão do nazismo na Alemanha) que tem uns 40 anos. No começo da minha vida de professora, eu já usava esse documentário. Então, tem isso, essa estética do novo rico, que é a estética do cafona, a estética da frieza. Existe uma ética e uma estética e uma política que andam todas juntas.   “O passado é uma grande dor que Helena sente em todo o corpo” (trecho do livro) / Foto: Fabiana Reinholz E o teu livro, está sendo lançado em agosto, que é o mês de conscientização também, e como um rompimento do silêncio, quando a gente fala de violência, do silenciamento. Saiu uma matéria recentemente, no (site) Matinal falando de casos de jovens que foram estupradas há muitos anos e só agora estão falando disso.  Este mês tem essa marca importante, mas o feminismo, que hoje irrompeu com toda a força, nos trouxe essas notícias por quê? Porque antes não podíamos falar. As violências que a gente sofria não tinha coragem de falar. Tinha vergonha da violência que a gente mesmo sofria.  Está cheio de homem morto nesse livro, é uma vingança poética Agora, porque a gente fala e não se sente mais culpada? Não é porque o patriarcado mudou. É que nós temos umas às outras. Antes a gente não tinha porque o patriarcado fazia esse jogo de nos separar. Agora, acabou. Agora, estamos juntas. O patriarcado não vai poder avançar se continuarmos unidas. Por isso escrevi esse livro para as mulheres. Não é para homens. Claro que vai ter homem que vai ler porque não é burro. Mas nenhum homem burro vai conseguir avançar da terceira página. Escrevi no Instagram que o cara, à medida que vai avançando na leitura, vai morrendo no meio das páginas. É uma pura vingança, está cheio de homem morto nesse livro, é uma vingança poética.  Fiquei pensando nas categorias analíticas do feminismo e refletindo: Quais seriam as tuas afinidades com o feminismo negro? Quando falo do feminismo negro, fico pensando nas categorias enquanto dororidade, na questão da própria interseccionalidade, porque vejo muito te lendo e agora te ouvindo, que tem muitas relações e queria saber como se dá isso.  Tem várias coisas. Tu sabes, por exemplo, que o livro da dororidade (conceito que estuda as opressões de gênero e raça) fui eu que… A Vilma Piedade é minha grande amiga, e a gente, ela, a Marielle, eu e várias outras vivíamos no Rio de Janeiro fazendo política. Um dia, a Vilma chega pra mim e diz assim: ´Marcia, não é sororidade. É dororidade`. Aí eu disse: ´Sua gênia! Escreve isso, você tem que escrever um livro sobre isso`. Quero dizer, sou a madrinha, porque vi nascer e escrevi o prefácio.  O feminismo que nos fez entrar em democracia radical é o negro A Vilma nunca tinha escrito um livro e disse ´Escreve esse negócio aí`. Ela escreveu, levei para outra amiga, que é a dona da editora, a Simone Paulino, e aí a Simone publicou o livro. Que já foi publicado em espanhol. Ela é uma feminista, uma mulher do candomblé, uma irmã para mim. Sempre participou do movimento negro, mas nunca tinha se dado conta que era uma mulher intelectual porque estava fazendo outras coisas.  Como estudei a história do feminismo, fui vendo como o feminismo negro foi nascendo. Sempre tive uma aproximação com as questões do ponto de vista conceitual por ser uma professora de Filosofia. Sempre entendi que o feminismo negro é um divisor de águas. Do meu ponto de vista, falar do feminismo branco depois do feminismo negro é um paradoxo e uma contradição. Mesmo que a minha pele seja branca, o feminismo que realmente é feminista, que fez avançar, é o negro.  Nós, que temos peles brancas, mas que não somos signatárias da branquitude, que repudiamos a branquitude e queremos desmontar a branquitude, a gente segue as feministas negras. É isso que eu faço: sigo as feministas negras, leio as feministas negras. Comecei a desenvolver um projeto sobre o que chamo ´feminismo dialógico`, que para mim é um jeito de fazer conversar certas vertentes.  Penso que o feminismo está se transformando em democracia radical, o devir do feminismo é a democracia radical. E o feminismo que nos fez entrar em democracia radical é o negro. Por exemplo, você vai ler as mulheres da Europa que eram brancas, que podiam escrever, você lê e entende elas dentro do momento histórico que estavam vivendo. Mas aí você lê a Sueli Carneiro, que é genial… O que seria de nós sem aqueles textos? O que seria de nós sem a Lélia Gonzalez e por aí afora? Audre Lorde, sem o feminismo interseccional, sem essas mulheres americanas geniais, bell hooks, Patrícia Hill Collins, Kimberlé Williams Crenshaw, que inventou o nome da coisa.  Ainda acho que Porto Alegre vai dar uma guinada rumo a sua própria felicidade Quando se olha dentro da história lá está o feminismo negro, Audre Lorde e as tantas outras que as inspiraram. Você começa a ver o avanço no tempo. É o feminismo interseccional. Você vê a Angela Davis. O que ela fala no livro dela sobre raça, classe e gênero, é genial também. Ela vai mostrando: ´e aquelas brancas lá, aquelas brancas abolicionistas, o que que elas queriam com a gente?` No fundo é isso: o que que elas queriam com a gente? Elas estavam lá passando por poucas e boas com aquele macharedo delas. A afinidade dos sofrimentos se torna também afinidade das lutas.  Claro, existe a mulher fascistizada também, a mulher patriarcal. Mas acho que serão superadas. Nem vai mais ter lugar para elas na medida em que a gente avance nessa frente de mulheres de todos os tipos.   Agora, não vai ser doce. Não foi até agora. Até agora a gente esteve na mira das balas, do chumbo grosso, e vai continuar. De vez em quando, tem que fugir como eu fiz dos caçadores, uma bruxa de vez em quando deve fugir. Aí a bruxa volta. Mesmo que os algozes queiram me matar, o livro está escrito e esse assim para a eternidade. Isso compensa, dá uma sensação de tudo bem, estou viva.  Última pergunta: alguma intenção de concorrer no ano que vem?  Não. Vou deixar pra Manuela d’Ávila que é mais mulher do que eu. Manuela deveria porque é uma lástima que Porto Alegre seja essa cidade. Ainda acho que Porto Alegre vai dar uma guinada rumo a sua própria felicidade e porque o alto ódio dos porto-alegrenses contra eles mesmos tem como sintoma este governo municipal.  Fonte: BdF Rio Grande do Sul Edição: Ayrton Centeno

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